Respeitável Público! Vamos levar o Circo Negro ao Museu?
Exposição aprovada, ancestralidade e
o convite ao Brasil para investir em sua própria memória
Como cuidamos das histórias que precisam ser relembradas? E, mais do que isso, quem decide quais vidas merecem ser homenageadas? Essas perguntas atravessam a minha trajetória e também o meu mestrado na UFMG, que nasce não apenas como pesquisa, mas como urgência.
Sou Mariele Conceição, artista, educadora, pesquisadora, mulher negra e mãe em puerpério. Há anos venho me dedicando a estudar e difundir a trajetória de Benjamim de Oliveira, um multiartista nascido em Minas Gerais que fugiu da escravização e construiu, no picadeiro, no teatro, no cinema e na música, uma obra fundamental para a cultura brasileira. Ainda assim, sua história segue pouco ensinada e quase ausente dos espaços museais.
Tenho me dedicado ao projeto de exposição Circo Teatro Negro e Benjamim de Oliveira: do século XIX aos dias atuais, a partir de uma perspectiva afro-referenciada, conectando arte, educação e patrimônio. A proposta é uma exposição com acervo, dramaturgias, conteúdos educativos e experiências sensoriais que conectam o público à história do circo negro no Brasil. Não se trata apenas de contar uma biografia, mas de reposicionar o circo negro como parte estruturante da história das artes no país.
Mas pesquisar, no meu caso, nunca foi um caminho linear. Sem financiamento para desenvolver o trabalho, precisei inventar meios de sustentar a própria pesquisa. Criei um curso online sobre circo negro e Benjamim de Oliveira e, a partir dele, consegui viabilizar minha ida ao Rio de Janeiro. Foi assim que cheguei ao Centro de Documentação e Memória da FUNARTE, o CEDOC, onde realizei a catalogação de documentos sobre Benjamim que até então não estavam organizados em uma base de dados estruturada.
Esse gesto, aparentemente técnico, é também político. Organizar e planilhar um acervo é permitir que uma sistematização aconteça, circule e seja acessada. É criar condições para que futuras pesquisas, exposições e produções artísticas possam vir ao mundo.
Ao longo dessa trajetória, também me dediquei à revitalização de sete peças teatrais de Benjamim de Oliveira, que estavam pouco acessíveis. Esses textos foram transcritos, organizados e reinseridos no debate contemporâneo, somando-se à criação de um portal digital, com bibliotecas de leitura e audiovisual, e a uma série de encontros formativos que deram origem a redes de pesquisa e criação.
Paralelamente, venho desenvolvendo um movimento de articulação que amplia esse campo: o mapeamento nacional do Riso Negro. Essa iniciativa nasce em diálogo com Wildson França, criador do Quilombo Benjamim de Oliveira, e ganha força em 2025, a partir de conversas com Rob Silva e Hammai Assis, do Circo Experimental Negro, quando compreendemos a importância de ampliar esse gesto de mapeamento para o campo do circo em toda a sua amplitude de linguagens. Mapear o Riso Negro é também afirmar sua existência, sua diversidade e sua continuidade em diferentes territórios do país.
O formulário para participação no mapeamento está aberto: https://forms.gle/A8YB6gUCenCzXZzM6
O projeto da exposição está estruturado. Possui conceito, conteúdo, planta expográfica e base curatorial. Foi reconhecido em diferentes instâncias: obtive aprovação na Lei Rouanet, fui classificada em terceiro lugar no edital Descentra (ainda que o recurso disponível não alcance o terceiro lugar) e também apresentei a proposta ao Centro Cultural da UFMG, desenvolvendo toda a concepção expográfica.
O projeto está pronto para acontecer, aprovado para captação via Lei Rouanet, mas ainda sem patrocínio.
Há, portanto, um paradoxo evidente. Enquanto trabalhadora da cultura, pesquisadora e mulher em múltiplas demandas, sigo nos desafios de estruturar a captação e de lidar com a escassez de recursos. Em Belo Horizonte, registramos uma moção no Plano Municipal de Cultura, evidenciando que o circo é uma das áreas mais sucateadas e que o campo do patrimônio também enfrenta limitações orçamentárias. A nossa saúde mental está encruzilhada entre sobreviver e sonhar.
Entre a escrita acadêmica, o cuidado com minha filha, a produção de projetos e a busca constante por recursos, minha mão e meus olhos se emocionam ao poder nomear e escrever sobre bastidores que não são instagramáveis. E, neste momento, o que atravessa não é apenas teoria, mas a necessidade de afirmar que estudar também é trabalho e precisa ser reconhecido como tal. Conselhos, fóruns, congressos, coletivos, aquilombamentos e festivais tudo isso é trabalho, e exige trabalho.
Nossa presença nas curadorias, nas pesquisas e nos museus, com periferias e pautas negras ocupando esses espaços, é um gesto que ultrapassa o campo simbólico. É uma ação concreta de enfrentamento ao apagamento histórico e de construção de reparações com embasamento e referência.
Este texto nasce na disciplina Seminário de Pesquisa III, a partir de uma provocação do professor Bernardo Jefferson, que me perguntou: por que não escrever sobre isso? Sobre as dificuldades, sobre os caminhos necessários para que essa exposição se torne realidade. Este artigo é, portanto, também uma resposta.
O projeto pode acontecer por meio de patrocínio via Lei Rouanet ou por uma campanha de financiamento coletivo, que será lançada como um caminho possível para a realização de uma versão mais acessível da exposição.
Mais informações estão disponíveis no portal:
https://linktr.ee/benjaemmim
Instagram: @benjaemmim
Este texto é, portanto, um convite a patrocinadores, instituições e agentes culturais que compreendem a importância de investir na memória e na cultura brasileira:
vamos levar o Circo Negro para o Museu?
