Circo, Negro, Indígena & Romani: De onde vem a nossa gargalhada?

Você já comeu sementes de abóbora?

Já se permitiu demorar um pouco nesse gesto simples, mastigar devagar, sentir o gosto da terra atravessando o corpo e imaginar que, dentro daquela pequena semente, pode existir não apenas um alimento, mas uma cosmo percepção inteira, um modo de compreender o riso, a vida e as relações entre os seres?

Com a licença… já esteve em locais de ancestralidade onde a gargalhada benze? Existe aquela risadinha que acompanha charuto e a bengala! Sim… Larôie Pomba Gira! Aquelas que em aliança com a própria liberdade, que por conhecer as ervas muitas vezes foram queimadas pela inquisição ou nos tempos atuais fizeram sua passagem diante de contextos de violência, mas que unem as egrégoras ancestrais. Pretas e Pretos Velhos também tem um jeitinho sábio de ser certeiro e sorridente.

Começo por essas perguntas porque, antes mesmo de qualquer lona erguida, antes da formalização de um picadeiro e muito antes da narrativa consagrada que situa o nascimento do circo na Europa, existem outras histórias, outras presenças e outros modos de produzir alegria que precisam ser considerados quando nos propomos a pensar as raízes da gargalhada.

Inclusive, esse pensamento também se fortalece a partir da minha vivência nas aulas de dança cigana com Suriah Callin, no método DANC-E, onde uma das integrantes da turma, a facilitadora Ana Flávia Mendes, trouxe a proposição de pensarmos a cultura a partir de uma tríade: negra, indígena e romani. Inspirada por essa elaboração e atravessada por esse campo de estudo, no momento em que também mediava a dança Callin, especialmente ao abordar sua dimensão histórica, me atravessou uma pergunta que segue reverberando.

Hoje temos a Lei 10.639/03, que estabelece a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira, posteriormente a Lei 11.645/08, que inclui a obrigatoriedade da história indígena; mas quando teremos uma legislação que nos convoque a enfrentar os preconceitos e estudar de forma comprometida a história romani (“cigana”)?

A historiografia dominante e seus limites

 

A história mais difundida sobre o circo moderno costuma situar sua origem no século XVIII, associando-a à figura de cavaleiros ingleses que, ao realizarem demonstrações de acrobacias equestres, teriam dado início a um formato organizado de espetáculo, posteriormente expandido e sofisticado na Inglaterra e na França, consolidando aquilo que hoje se reconhece como circo tradicional.

Essa narrativa, amplamente aceita e reproduzida em livros, pesquisas e instituições, constrói uma linha de continuidade que privilegia referências brancas, europeias e modernas, associando o circo à técnica, à disciplina do corpo e à espetacularização organizada de habilidades, como se a experiência do riso e da performance tivesse ali o seu ponto máximo.

No entanto, ao observarmos com mais atenção, percebemos que essa versão da história, embora relevante, é profundamente limitada, pois desconsidera a existência de outras práticas, outros saberes e outras formas de produzir comicidade e encantamento que já operavam em diferentes territórios muito antes da consolidação europeia do circo.

Diante disso, torna-se necessário tensionar essa narrativa única e abrir espaço para outras genealogias da gargalhada.

A semente como origem: os Hotxuá e o riso

 

Entre a nação Krahô, como nos ensina o indígena Ismael Krahô, existem os Hotxuá, seres que, segundo sua cosmologia, vieram da semente de abóbora e que têm como função fundamental trazer alegria para a comunidade, atuando como mediadores entre o cotidiano e o sagrado.

Ao olharmos para os Hotxuá, percebemos que o riso não se organiza como entretenimento, nem como número cômico isolado, mas como uma prática profundamente enraizada na vida coletiva, capaz de reorganizar relações, tensionar normas e reequilibrar o mundo.

Nesse contexto, a gargalhada deixa de ser um efeito superficial e passa a ser compreendida como uma força vital, uma tecnologia de existência que opera no corpo e no coletivo, produzindo cura, deslocamento e continuidade.

Pensar o circo a partir dessa perspectiva implica reconhecer que a comicidade não nasce no interior de um picadeiro europeu, mas já habitava outros territórios, outras epistemologias e outros modos de relação com o mundo.

Folia, disfarce e a política do riso

 

Ao atravessarmos o território brasileiro, encontramos nas Folias de Reis e nas festas do Divino uma outra camada fundamental para compreender a presença do riso como prática ancestral.

Uma narrativa oral recorrente afirma que, diante da ordem de Herodes para matar Jesus Cristo, soldados em fuga teriam se disfarçado, dando origem a figuras mascaradas que, ao longo do tempo, se transformaram nos palhaços e brincantes que hoje percorrem comunidades cantando, rimando, dançando e encenando.

Essa história revela algo essencial: o riso como estratégia de sobrevivência, como possibilidade de existir diante da violência, como forma de se esconder e, ao mesmo tempo, se expressar.

Além disso, essas manifestações são profundamente atravessadas por presenças negras, que se evidenciam no ritmo, na musicalidade, na corporeidade e na organização coletiva das festas, como é possível observar nas congadas do século XIX, que já mobilizavam multidões e articulavam dimensões religiosas, culturais e políticas.

É importante destacar que esses grandes encontros populares também atraíam circos, estabelecendo um diálogo direto entre festa e espetáculo, de modo que o circo não surge como algo externo, mas como continuidade dessas práticas coletivas de celebração e encontro.

O Circo como Quilombo

 

Aaah… os ditados populares são ciência e sabedoria, né? Muito difundida na diáspora, a expressão “fugir com o circo” revela que o picadeiro também foi e é espaço de fuga, de aquilombamento. Está aí a própria trajetória de Benjamim de Oliveira, multiartista, criança afrodescendente que foge da escravidão e revoluciona a cultura brasileira, se destacando como palhaço e ampliando sua área de atuação junto ao cinema, a indústria fonográfica. Junto dele vem uma Egbé, vem mocambos inteiros, a começar da sua própria companheira Victoria de Oliveira, até chegar no Trovador da Malandragem, o diamante negro Dudu das Neves. Logo mais irei refletir mais aprofundadamente sobre esse circo enquanto quilombo.

Travessias romani e a construção do circo como modo de vida

 

Outro eixo indispensável para ampliar a compreensão sobre as origens do circo é a presença dos povos Romani, cuja relação com o universo circense se dá não apenas no campo da performance, mas também na constituição de modos de vida itinerantes, familiares e profundamente conectados à arte.

Diversos registros indicam que muitas famílias ciganas foram proprietárias de circos ou estiveram diretamente envolvidas em sua construção e manutenção, tanto na Europa quanto nas Américas, especialmente a partir do século XIX.

Grupos como os Kalderash, reconhecidos por sua habilidade na metalurgia, os Lovara, tradicionalmente ligados à criação e comércio de cavalos, e os Ursari, conhecidos pelo adestramento de ursos e pela realização de espetáculos que atraíam grandes públicos, demonstram a diversidade de saberes que atravessam o campo circense.

Além disso, famílias como Stevanovich e Stankowich contribuíram de forma significativa para a consolidação do circo no país, trazendo consigo não apenas técnicas, mas também formas de organização social e artística que permanecem vivas até hoje.

A própria Erminia Silva a quem agradecemos por tantas pesquisas e elaborações sobre a história circense vem de origem cigana e circense.

Para você… De onde vem a gargalhada?

 

No contexto brasileiro, torna-se ainda mais evidente que o circo se constitui a partir de encontros entre diferentes matrizes culturais, rompendo com qualquer ideia de pureza ou origem única.

A história de João Alves, pai do palhaço Xamego no Circo Guarany, que tinha como companheira uma mulher indígena, evidencia essas conexões profundas entre culturas, enquanto o próprio nome “Guarany” já inscreve uma ancestralidade indígena no campo circense.

Da mesma forma, a trajetória de Benjamim de Oliveira, cuja família é marcada por nomes caboclos, revela um Brasil em que as identidades são atravessadas por múltiplas influências, incluindo matrizes negras, indígenas e populares.

Esses elementos nos permitem afirmar que o circo brasileiro não pode ser compreendido como uma simples importação europeia, mas como uma construção situada, complexa e profundamente enraizada nas dinâmicas culturais do país.

A gargalhada como pulsão de vida

 

Ao reunirmos esses diferentes fios, indígenas, negros e romani, torna-se possível compreender que a gargalhada não possui uma origem única, nem pode ser reduzida a uma tradição específica.

Ela emerge da terra, como nas sementes de abóbora dos Hotxuá, atravessa estratégias de sobrevivência e disfarce, como nas folias, e se desloca pelo mundo com os povos ciganos, reinventando-se em cada território.

Mais do que um recurso estético ou um efeito cômico, o riso se apresenta como uma pulsão de vida, uma força que insiste em existir mesmo diante das violências, das dispersões e das tentativas de apagamento.

Considerações finais

 

Diante desse percurso, torna-se urgente questionar a centralidade da narrativa europeia na história do circo e reconhecer a existência de múltiplas genealogias que contribuem para a formação desse campo artístico.

Talvez a pergunta mais potente não seja “onde nasceu o circo?”, mas sim: quais são as forças, os corpos e as ancestralidades que sustentam a necessidade humana de rir, brincar e criar coletivamente?

Ao deslocarmos o olhar, percebemos que o circo não começa na Europa e que a própria Europa vai além de cavaleiros, homens brancos, a filosofia circular do picadeiro grita por conexões com quem tem a gira, a umbigada, o tempo espiralar e erês como fundamento.

Ele começa na vida.
Na terra.

Nos corpos que resistem, criam e transformam a existência em movimento.

E é nesse movimento que a gargalhada se afirma como memória viva, como prática ancestral e como horizonte de continuidade.

Referências

 

RUGENDAS, Johann Moritz. Congada no Rio de Janeiro, século XIX.

CAMINHOS CIGANOS. Boyásh ou Rudari. Disponível em: https://caminhosciganos.org/boyash-ou-rudari/

CAMINHOS CIGANOS. Kalderash. Disponível em: https://caminhosciganos.org/kalderash/

ZARCO FERNANDES. Circo e ciganos. Disponível em: https://zarcofernandes.webnode.com.br/circo-e-ciganos/

COLETIVO CIGANAGENS. Resistência cigana circense: porque o espetáculo não pode parar. Disponível em: https://coletivociganagens.wixsite.com/my-site

LOPES, Daniel de Carvalho; GUIMARAIS, Marcos Toyansk; SILVA, Erminia. Circenses e ciganos: caminhos que se cruzam. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbep/a/BsLCm5h7p4wdz3JjZcGcYBP/?lang=pt

Ciclo de Conversas Passos de Palhaços Cômico Hôtwa Ismael Ahprac Krahô. Disponível em: https://youtu.be/JbxnoG8xZLU?si=3c6UcquAW0r_IeTN

Related posts

Flores Fortes – Um Convite à Sororidade – Escola PE de Circo

Silva

O circo social e a procissão dos vaga-lumes

circon

FIT Mostra o Circo

circon