Subjetividade, Agência, Ancestralidade e Legado nas Artes Negras: Conceitos para compreender e se espelhar nas histórias de Benjamim de Oliveira (1870-1954)

Saudações! Eu sou mariele, mar, mulher negra, periférica, multiartista, palhaça, mãe, pesquisadora…e na condição de aprendiz me inspiro na intelectual bell hooks para assinar meu nome em letras minúsculas. Desejo que esse texto faça sentido pra você e crie conexões entre nós!

Quero te convidar pra conversar sobre arte negra por meio do multiartista Benjamim de Oliveira (1870–1954). Estou feliz demais porque encontrei um jeito de compreender as histórias do palhaço Beijo (que também são nossas). O fio da meada apareceu quando firmei o ponto e assumi quatro categorias interpretativas: Subjetividade, Agência, Ancestralidade e Legado.

Essas bases foram aprendidas com duas intelectuais negras que me tocam profundamente — Suely Virginia dos Santos e Caroline Amanda Lopes Borges. Agora sinto que encontrei sustentação para a imersão que venho desenvolvendo sobre Circo Teatro e também para o meu caminho no mestrado. Registrar nossos processos é urgente, porque a branquitude e a colonização do saber seguem tentando complicar aquilo que nasce da alma — os conhecimentos que querem vir ao mundo com encantamento e não com dor ou palavras difíceis.

● Um breve panorama sobre Benjamim de Oliveira (1870-1954)

 

O multiartista Benjamim nasceu no século XIX, foi escravizado junto com sua família e, aos 12 anos, fugiu com o circo. De lona em lona, construiu carreira como palhaço, fecundou uma família artística e buscou sua mãe em Minas Gerais. Dentre várias ações, trouxe o jongo, a chula, o lundu e a capoeira para o picadeiro. Benjamim gravou músicas, fez cinema, contribuiu para a consolidação do circo teatro, realizou espetáculos de benefício (um deles em apoio ao almirante negro João Cândido, da Revolução da Chibata). E aí eu te pergunto: conhecemos essa história?

● Subjetividade Negra – Suely Virgínia dos Santos como referência

 

A Subjetividade tem sido o ponto de partida para a minha pesquisa. Aprendi este conceito com Suely Virgínia dos Santos, consultora em relações étnico raciais e terapeuta. Suely foi uma das principais convidadas da web série que criei sobre maternidade, palhaçaria e saúde pública. Com ela aprendi que subjetividade é como a gente sente, pensa e interpreta o mundo com base em tudo que envolve nossa existência, corpo, cultura, espiritualidade, afetos, raça, classe, gênero … A subjetividade negra nos reconecta à humanidade que o racismo tentou roubar. Muitas vezes ouvimos sobre subjetividade quando estamos com pessoas que nos fazem relembrar, por exemplo, que as nossas digitais, as íris dos olhos são únicas, que temos destino, importância…

E aí, antes de sair escrevendo sobre Benjamim, eu dou uma ré na subjetividade. Esse movimento de ré-torno chama-se sankofa, símbolo adinkra representado por um pássaro que olha para trás, e ao mesmo tempo, tem o corpo fértil, para frente. A complexidade desta mensagem não se reduz a uma frase e indica a reconexão consigo e com o tempo. A subjetividade, ao invés de romantizar ou apagar alguém, humaniza. Nesse sentido antes de buscar o Benjamim dos “grandes feitos”, é necessário compreendê-lo como pessoa, homem preto, filho, pai, multiartista, intelectual cuja história é infinita, permeada por sentimentos e pelo matriarcado negro. No Projeto Benja em Mim, nos cursos online e no processo de pesquisa do Espetáculo “Benjamim de Oliveira…em Nós”, foram sendo gestadas todas essas percepções que agora estão ancoradas na subjetividade.

Nas oficinas com estudantes de escolas públicas quando mostro a foto de Benjamim por vezes escuto: “Alá Zé, parece seu tio”, “homem feio”, “palhaço assassino”, “homem que faz teatro é mulherzinha”. São falas que revelam como o racismo atua nas subjetividades. Com o público adulto também são levantadas muitas questões que atravessam subjetividades. Wildson França, palhaço e pesquisador sempre pergunta, “quantos donos de circo negro existem?”, e a discriminação nos ambientes artísticos, infelizmente revela depoimentos que mostram semelhanças com entrevistas de Benjamim… Tenho compreendido como a subjetividade é importante para desconstruir o racismo que afeta nossa percepção de pessoas e processos.

Vou compartilhar aqui cinco imagens de apostilas que venho criando para trazer reflexões sobre as subjetividades negras e como elas foram (e ainda são) apagadas, distorcidas ou simplificadas. A primeira imagem é uma pintura do século XIX, que retrata uma folia de reis.Eu defendo que a própria origem do circo, do picadeiro, precisa ser desvinculada apenas da Europa para considerar influências negras, ciganas… A subjetividade branca que domina a historiografia não se desfaz de seus “pais fundadores”, define quem faz “revoluções” e quem faz “revolta”. Organiza a linha do tempo “universal” a partir dos marcos racistas e suaviza crimes com eufemismos: estupradores viram “senhores de engenho”, sequestradores de pessoas viram “proprietários”.

Criar um mosaico de movimentos e pessoas negras contemporâneas a Benjamim se torna um gesto necessário, mas difícil por conta do racismo. Fotografias de época abrem espaço para perguntar: Onde estão as histórias de mulheres que aparecem ao lado das personalidades? Gosto também de mostrar os bordados de João Cândido, o almirante negro da REVOLUÇÃO da Chibata, as indumentárias do cangaço que era tecidas por Lampião para percebermos que essas masculinidades se expressam, que esses homens tem muitas camadas, complexidades e estão reduzidos a poucas linhas nos livros, quando aparecem.

● Agência, Ancestralidade & Legado – Caroline Amanda como referência

 

Caroline Amanda me proporciona três conceitos para pesquisar Benjamim de Oliveira: agência, ancestralidade e legado. É possível acessar essas elaborações na dissertação “Amefricaníyádade Atlântica: Oiyadade e matripotência das chefes de família como solo e semente para reflorestar o imaginário e tornar o tempo fecundo e próspero”. Para além destas três categorias interpretativas, existe um sistema filosófico que eu integro com as suas produções.

Atualmente está em voga a palavra protagonista. Porém, Caroline aponta que ser protagonista não é, necessariamente, ser agente. No teatro, uma pessoa pode até estar no centro da cena, mas quem dita sua fala, suas ações pode ser um diretor, um roteiro pré-definido. Agência é ter ação consciente, dirigir a própria vida e isso pode significar sair do palco, estar nos bastidores.

Benjamim foi agente da sua própria história. Fugir do cativeiro, decidir ser artista, trabalhar em, pelo menos, doze circos, gravar discos, fazer cinema, criar uma família preta… Tudo isso são atos de agência. Encontrei um arquivo inédito quando fui ao Rio de Janeiro: a foto de Benjamim, aos 70 anos, fazendo ginástica no jardim de sua casa. E quando acessei outra imagem dele no acervo, uma foto que é mais divulgada na internet, mas que eu nunca havia lido a legenda, descobri que ele estava tocando lundu para sua mãe, Dona Leandra, e que ela teve sabedoria para viver 119 anos. Quando eu entrei no Centro de Documentação e Memória, botei as luvas, a máscara, já foi uma emoção (sabemos como os espaços dos arquivos ainda precisam de mais presenças negras), e dei de cara com informações revelando que as histórias são infinitas, sempre haverá temas para pesquisar. Aqui entram os conceitos de ancestralidade e legado.

A Ancestralidade e o Legado também têm sido categorias interpretativas importantes para mim. São palavras na moda, mas vim aprender mesmo com Caroline Amanda: Ancestrais não são antepassados. Ancestrais, pelo amadurecimento em vida, deixaram legados. Compreender Benjamim como ancestral, querer encontrar seu legado, as suas obras dispersas em arquivos, em acervos pessoais e revitalizar as suas produções é estar em contato com heranças vivas. O conceito de ancestral me retira da distração de discutir se Benjamim é o primeiro palhaço negro do Brasil e a dimensão do legado, como uma flecha certeira, me chama para o desejo de recuperar patrimônios. Faz com que uma pesquisa se torne coletiva e se transforme em movimento. Em 2023 o projeto Benja em Mim reuniu mais de vinte profissionais da palhaçaria negra para estudar e revitalizar Benjamim. No ano de 2024, elaboramos um abaixo assinado para o Ministério da Cultura, para FUNARTE, e em 2025, a Fundação Palmares também se reuniu com este grupo que hoje tem a presença do Circo Experimental Negro, Wildson França, Antonia Vilarinho. Essas mobilizações sobre o direito à informação serão pautas para um outro artigo. São mobilizações que não começam hoje e nem terminam amanhã. As pesquisas de Ermínia Silva, Daniel Lopes, Daniel Silva (e tantas outras pessoas que precisamos descobrir) estão aí como faróis e provocações para ir além mar… no meu barco, subjetividade, agência, ancestralidade e legado agora são fundamentos. Se você tem trabalhos ou vontade de pesquisar sobre esses temas, me chama que eu vou, existe muito de nós quando acessamos o que também é nosso!

REFERÊNCIAS

 

Caroline Amanda Lopes Borges. Amefricaníyádade Atlântica: Oiyadade e matripotência das chefes de família como solo e semente para reflorestar o imaginário e tornar o tempo fecundo e próspero. 2025. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Suely Virgínia dos Santos. Quilombos e Educação Escolar Quilombola: estudo introdutório sobre subjetividade e atitudes reativas às afetações psíquicas causadas pelo escravismo e racismo no Brasil. 2016. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Minas Gerais.

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