Por Juno Nedel.
Gostaria de começar dizendo isto: não me considero grande coisa. E admito que o circo pelo qual me apaixonei é bastante precário.
Calma lá! Não digo “precário” porque nos falte elaboração técnica e dramatúrgica. Não é que nossa arte não construa, também, castelos de sonhos, como dizia o palhaço Piolin. Até porque, sabemos que muites de nós dão sangue, às vezes literalmente, para invocar outros mundos em cena. Nêgo Bispo já falou e eu digo junto com ele: a gente precisa subverter o sentido colonial e pejorativo das palavras.
Quando falo de circo da precariedade, eu falo de artistas que trabalham no farol, malabareando com seis claves em troca de moedas. Eu falo de artistas que não têm casa, ou que só tenham casa onde houver um sofá para se encostar. Falo de artistas que vivem, já viveram ou vão viver na rua. Que morrem por viver a sua arte e que são honradas por sua rebeldia – Julieta Hernández Martínez, presente!
Falo de artistas que viajam de carona, de bicicleta, a pé. Que se metem além da fronteira sem documentos e sem entender quase nada de outro idioma. Que não têm dinheiro para figurinos elaborados. Que não têm dinheiro algum, exceto aquele que trazem em seu próprio corpo. Falo de artistas cujos nomes e gêneros não batem com as informações que constam nos documentos oficiais. De artistas que não têm documento algum.
Que tipo de arte é possível de se fazer a partir desses lugares? E quais são as relações que criamos através do circo?
Se as nossas relações artísticas, afetivas e de trabalho se desenvolvem na escassez, isso afeta a maneira com que produzimos arte. A arte circense está inserida em uma rede de relações vivas – ela não é alienada do mundo. Se o nosso circo resulta precário, isso diz menos sobre a nossa competência artística e mais sobre as injustiças sociais, econômicas e políticas que condicionam as nossas vidas.
Não me entendam mal: não quero romantizar a escassez. Como me disse Alysson Lemos, esses dias, “uma coisa é pensar em arte marginal; outra coisa é pensar numa arte feita na precariedade”.
Eu quero ter o direito de produzir circo dissidente e pagar as contas no final do mês. Quero ter a possibilidade de treinar técnicas de risco com a devida estrutura e orientação de minha comunidade. Quero que a gente tenha escolas municipais e gratuitas de circo. Que a gente tenha cursos de graduação em circo. Quero ter acesso a cuidados de saúde especializados, porque sei que, se me lesionar, vou ficar uns tantos meses inativo. Eu quero ter direito a aposentadoria, descanso semanal e licença maternidade/paternidade como trabalhador circense. Seria tudo isso apenas um delírio produzido pela precariedade?
Agora, que moro em Desterro, recebo dez vezes menos por apresentação de espetáculo circense do que recebia em São Paulo. Isso quer dizer que as nossas horas de trabalho não são as mesmas. Será que não é tempo de discutirmos um piso nacional para a artista circense? Um sindicato nacional? Um projeto de lei de amparo específico para garantir os direitos trabalhistas de artistas circenses?
Uma salva de palmas para as nossas artistas, que sabem fazer de tudo com quase nada*!
