No início do século XIX, Coimbra era uma cidade muito pequena, com cerca de 12000 habitantes, cuja planta abrangia a velha Almedina mais as casas da baixa, que não chegavam a aproximar-se do rio Mondego. Para além disso, existiam alguns colégios e conventos periféricos. Com a ocupação francesa, em 1807, a cidade de Coimbra teve de se submeter ao invasor, tendo sido pilhada. Contudo, os seus habitantes, onde se incluíam, entre outros, os comerciantes, os estudantes e os lentes, participaram em diversas ações militares, contribuindo para o insucesso das intenções de Napoleão. Com a saída das tropas francesas, em 1814, a cidade teve de se recompor desses anos de miséria, não havendo referências, nos primeiros tempos, à realização de espetáculos. Entre 1818 e 1824, não houve espetáculos de teatro e organizaram-se apenas duas corridas de touros, em 1821, na Praça de São Bartolomeu e, em 1823, no Largo das Ameias.
Com a chegada de D. Miguel ao poder, em 1828, iniciou-se um período conturbado no país, que culminou com uma guerra civil entre os anos de 1832 e de 1834. Esta situação complicada do país levou, de novo, a uma paragem na realização de espetáculos na cidade. Muitos dos indivíduos ligados ao espetáculo tinham sentimentos liberais e, por isso, foram obrigados a sair do país. Alguns foram presos e outros tiveram de viver escondidos durante esse tempo.
Com o final da guerra, começaram timidamente a ser realizados alguns espetáculos na cidade. Em 1835, chegou a Coimbra uma companhia de ginástica, dirigida por Henriot, que construiu um teatro no antigo refeitório do extinto Mosteiro de Santa Cruz, tendo permanecido em atividade naquele local durante, sensivelmente, um ano. Contudo, na sua permanência, Henriot acumulou muitas dívidas e teve de sair da cidade. Os seus credores ficaram com os materiais que tinha no teatro.
Em 1842, atuaram num teatro académico, localizado nos baixios do Colégio das Artes, os irmãos Turins, que realizaram impressionantes exercícios de força. Este teatro, inaugurado em 4 de abril de 1836, surgiu em consequência do desaparecimento do teatro montado por Henriot.
Em 1846, alguns estudantes organizaram um teatro no armazém das casas do Pátio da Inquisição, que passou a denominar-se Teatro da Inquisição. Contudo, a guerra civil que começou nesse ano e terminou no ano seguinte impediu a organização de eventos. Somente no ano de 1848, o ginasta António d’Almeida realizou, nos dias 16 e 18 de julho, espetáculos no Teatro da Inquisição.
Passados alguns anos, no dia 22 de outubro de 1851, chegou a Coimbra uma companhia de cavalinhos, com a intenção de realizar alguns espetáculos no Pátio da Graça. A companhia teve a autorização da Câmara Municipal para construir um pequeno circo no amplo claustro do Colégio da Graça. O edifício pertencia, na época, ao município e tinha sido construído em 1543.
Fazia parte da companhia a dançarina Angelina, que tinha também muita destreza na equitação, nos saltos e nos equilíbrios na corda. Para além disso, era muito bela. Quando Angelina surgia no espetáculo, os estudantes e os que não o eram demonstravam o seu apreço, com muitas palmas e bravos, que atingiam o delírio. Mas nem sempre foi assim, pois houve um espetáculo em que alguém se manifestou contra a atuação da bela Angelina, originando uma cena de pancadaria entre os espetadores, que obrigou à sua interrupção.
Até 1853, o Pátio da Graça recebeu diversas companhias de circo, algumas delas bastante afamadas.

Em setembro de 1852, foi a vez de chegar à cidade a companhia de cavalinhos denominada Circo Equestre de Lisboa. A companhia era dirigida por Lustre e por Jean Victor e era composta por vinte e sete pessoas e dezasseis cavalos de raça Andaluza. A companhia era muito conceituada, tendo atuado em Espanha perante a rainha e em diversas cidades da Europa. O local escolhido para os espetáculos foi a Horta de Santa Cruz e a filarmónica do mestre João Alves, mais conhecido por João d’Aveiro, abrilhantaria a atuação dos artistas.

No início de 1854, chegou a Coimbra a companhia equestre de Lustre e de Bontemps para atuar, durante alguns dias, no Cais Novo. A primeira atuação foi em benefício do Asilo da Infância Desvalida e da Sociedade Filantrópico-Académica. A companhia continuou a atuar na cidade durante mais alguns dias, sendo os seus espetáculos publicitados na imprensa local.

Ainda no mês de janeiro de 1854, surgiu a notícia de que a Câmara Municipal tinha arrendado um terreno, na Horta de Santa Cruz, a um grupo de empresários, para a construção de uma Praça de Touros.
No final de novembro, a companhia de José Catalon chegou a Coimbra para realizar os seus espetáculos na nova Praça de Touros. O primeiro espetáculo foi adiado devido ao mau tempo e à ausência da filarmónica, que foi acompanhar António Feliciano Castilho na sua saída da cidade.
Até ao final da década, a Praça de Touros e o Cais Novo receberam diversas companhias de circo.
A primeira metade dos anos sessenta caracterizou-se pela escassez de espetáculos de circo na cidade, com apenas uma companhia a marcar presença. Contudo, nesse período apareceram alguns artistas isolados que realizaram espetáculos. Foi um período em que os melhores prestidigitadores europeus atuaram na cidade. Estes artistas atuaram no Teatro da Graça, no Teatro Académico e no novo Teatro D. Luís I.
Em outubro de 1862, a cidade recebeu a visita de Carvana, que trazia uma exposição de répteis, onde se incluíam alguns raros. A coleção não era muito vasta e iria permanecer em Coimbra, na Rua da Calçada, junto à Portagem, entre seis a oito dias. Carvana vinha de Lisboa, onde a sua exposição fora visitada por muitas pessoas, incluindo a família real.
Na segunda metade da década, o circo foi ocupar novamente a Horta de Santa Cruz. Contudo, as condições que aquele espaço apresentava eram fracas, pois não permitia uma grande afluência de pessoas, situação que limitava as receitas de bilheteira. Por isso, era necessário encontrar-se um espaço com melhores condições para os espetáculos de circo.
Inicialmente escolheu-se o Teatro D. Luís I, que permitia que os artistas conceituados ou pequenas companhias pudessem realizar as suas atuações, uma vez que não necessitavam de muito espaço. Depois, para receber as grandes companhias de circo, optou-se pela utilização da nova Praça de Touros de São Domingos, que se situava no Arnado, junto à fábrica de gás, e que foi inaugurada no dia 20 de outubro de 1867, com a realização de uma corrida de touros, perante uma multidão de pessoas. A Praça de Touros era ampla, tinha condições para guardar os animais e receber muito público. Contudo, a arena e grande parte das bancadas estavam expostas às condições do tempo que, em certas alturas do ano, obrigavam ao cancelamento dos espetáculos.
No dia 9 de fevereiro de 1868, chegaram a Coimbra dois artistas chineses, Arr-Hee e seu filho, para atuarem no Teatro de D. Luís I. Esta dupla era muito conceituada, tendo exibido as suas habilidades em Londres e na Exposição Universal de Paris. Em Portugal, Arr-Hee e seu filho já tinham atuado, em Lisboa, no afamado Circo de Price, com grande sucesso.
O sucesso dos artistas chineses foi enorme na cidade e, por isso, tentou-se que eles realizassem mais um espetáculo. Como o Teatro D. Luís I já estava ocupado, foram os empresários da Praça de Touros de São Domingos que conseguiram o acordo com Arr-Hee. A presença e o sucesso da dupla de artistas na Praça de Touros de São Domingos tornaram possível a contratação de várias companhias de circo, que trouxeram artistas importantes à cidade.
No início de setembro de 1877, surgiu a notícia de que a Praça de Touros de São Domingos estava a ser demolida, uma vez que estava muito danificada. O recinto recebera, ao longo dos anos, diversos espetáculos tauromáquicos e de circo.

Com a demolição daquele espaço, os espetáculos de circo seriam realizados apenas no Teatro D. Luís I. Essa situação iria limitar a presença de companhias de circo na cidade, pelo facto de o teatro não ter capacidade para receber as de grandes dimensões, com muitos artistas, animais e materiais. Para além disso, o teatro recebia, ainda, outros tipos de eventos como, por exemplo, teatro, récitas e bailes.
A década de oitenta trouxe um novo espaço para os espetáculos de circo em Coimbra. Localizado praticamente no mesmo local onde outrora se situava a Praça de Touros de São Domingos, o novo Teatro Circo Conimbricense foi construído num espaço de tempo muito curto. Foi inaugurado no dia 7 de março de 1881, com a companhia do Circo de Price, num espetáculo que estiveram presentas mais de duas mil pessoas.

No início da década houve ainda espetáculos no Teatro D. Luís I e no Teatro Académico, mas após a construção da nova infraestrutura, praticamente todos os espetáculos de circo se realizaram naquele local.
Foram anos em que surgiram na cidade boas companhias, com artistas excelentes, com grande prestígio no país e na Europa. Foi, também, nesta década que surgiu, pela primeira vez, em Coimbra, uma sociedade de ginástica, o Ginásio Clube Português, a atuar num espaço tão amplo. Esta novidade na cidade, que mais tarde seria repetida por uma sociedade de ginástica conimbricense, o Ginásio de Coimbra, demonstrava que havia uma ligação forte entre os profissionais do circo e os amadores da ginástica. Foram os artistas de circo que, com as suas atuações exemplares, influenciaram diversos jovens a gostarem da prática do exercício físico. Estimularam-nos a criarem as suas sociedades de ginástica e cederam-lhes o seu espaço para os seus saraus gímnicos.
Por sua vez, as tragédias ocorridas em salas de espetáculos na Europa e no país obrigaram os governantes a tomarem medidas em relação à segurança do público e dos artistas. O Teatro Circo Conimbricense foi também vítima das decisões governamentais, bem como as outras salas de espetáculos existentes na cidade.
No final de janeiro de 1889, o Teatro Circo Conimbricense foi vendido e iria ser alvo de importantes melhoramentos. Nessa altura, o Teatro D. Luís I já estava a ser alvo de obras de recuperação, tendo sido reaberto no início de abril. No mês seguinte, constava que o novo proprietário do Teatro Circo Conimbricense tivesse requerido à autoridade superior do distrito uma vistoria ao espaço. Contudo, a situação não avançou e, passado algum tempo, o proprietário mandou demolir o teatro.
Em outubro de 1889, surgiu a notícia da chegada a Coimbra da companhia de circo de Raphael Diaz. Já há alguns anos que a cidade estava privada desses espetáculos, sobretudo pelo facto de não existir um espaço que garantisse a segurança do público. A companhia vinha integrada no Circo de Verão, da responsabilidade de Paulo Lauret & Comp.ª. A estrutura do circo era portátil, de origem alemã, tinha capacidade para três mil pessoas e podia ser montada em vinte e quatro horas. O local escolhido para a instalação do circo foi a Rua de Entre Muros, que ficava próxima ao Mercado D. Pedro V, tendo essa opção sido bastante elogiada pelos conimbricenses.
O regresso do circo a Coimbra, com grandes assistências, fez despertar em alguns empresários o interesse na construção de um espaço específico destinado a este tipo de evento. Comentava-se que três cavalheiros tinham constituído uma sociedade para edificar, no bairro novo de Santa Cruz, um magnífico circo, quase todo em ferro. Era uma notícia importante para a cidade.
A última década do século XIX trouxe uma nova Praça de Touros, localizada na Azinhaga dos Lázaros, próximo da entrada do Choupal, onde chegaram a ser realizados alguns espetáculos de circo. Foi inaugurada no dia 29 de junho de 1890, passando a ser denominada Coliseu Conimbricense.

Contudo, a grande novidade, em Coimbra, foi a construção do Teatro Circo, numa zona da Quinta de Santa Cruz. Foi uma decisão assumida por um grupo de pessoas importantes da cidade, perante a falta de um espaço amplo para os espetáculos de circo e de teatro. A beleza e a polivalência do edifício foram realçadas pela imprensa.
O novo Teatro Circo foi inaugurado no dia 20 de janeiro de 1892, com a presença da Companhia do Real Coliseu de Lisboa, dirigida por Enrique Diaz.

O sucesso daquele espaço nos primeiros tempos de utilização foi enorme, tendo passado, ainda no ano da sua inauguração, a ser denominado Teatro Circo Príncipe Real. Nesses tempos áureos, a sala de espetáculos acolheu os melhores artistas de circo, bem como os saraus do Ginásio de Coimbra, perante o entusiasmo e admiração do público conimbricense. Contudo, as lacunas existentes no edifício, que prejudicavam os artistas e o público, e os problemas verificados na sua gestão trouxeram alguma decadência a um espaço recente da cidade. Aos poucos, os espetáculos de circo começaram a ser raros, parecendo que a preferência dos empresários da cidade era para os teatros e as zarzuelas. A tendência foi-se acentuando na segunda metade da década, perante a admiração da população que gostava muito do circo.
Em suma, o circo foi um dos divertimentos mais importantes de uma cidade que demorou a perceber que necessitava de instalações adequadas às características deste tipo de espetáculo. No entanto, apesar dessa lacuna, que levou muitos anos a ser resolvida, a cidade recebeu, durante o século XIX, as melhores companhias e os mais afamados artistas de circo. O espetáculo era inédito, fascinante, fantástico, exótico e, por vezes, um pouco ousado para a época. Por isso, era visto por muito público, onde se incluíam as famílias importantes da cidade e os muitos estudantes da Universidade. Foram tempos de grande animação e de entusiasmo em Coimbra.

Fontes e Bibliografia:
Fonseca, Augusto (1911). Outros Tempos ou Velharias de Coimbra. Livraria Tabuense.
Loureiro, Fernando (1947). Arquivo Coimbrão. Volume X. O Teatro em Coimbra. Subsídios para a sua História. Coimbra: Biblioteca Municipal de Coimbra.
Martins, Alfredo (1951). Esta Coimbra…. Coimbra: Coimbra Editora.
Oliveira, Jorge Castanheira (2017). O Circo na Coimbra do Século XIX. Coimbra.
Periódicos:
Diario de Cordoba.
O Conimbricense.
O Liberal do Mondego.
O Observador.
O Tribuno Popular.
