O CIRCO enquanto ÚTERO, CÉU e AQUILOMBAMENTO

Vamos conversar sobre Matripotência?

Hoje eu venho aqui compartilhar mais um texto no Circonteúdo. Meu nome é Mariele. Para quem ainda não me conhece, pode me chamar de Mar. Vamos trocar ideia?

Existe magia na lona do circo.

A lona circular.

Quente.

Respirando.

Guardiã de ancestralidades, nascimentos, gargalhadas, sentimentos e travessias.

Hoje compreendo a lona como um grande útero cósmico que espelha o céu.

E quando acesso a sabedoria “fugir com o circo”, reconheço o aquilombamento. Quantas pessoas fugiram da escravidão por meio do circo. Hoje estudo uma delas, Benjamim de Oliveira que aos 12 anos foge com o circo e se encanta pelo circo.

O meu estudo sobre o Circo e Benjamim de Oliveira também se une a gravidez, parto e puerpério. Comecei a perceber o quanto a lona do circo, a maternidade e os quilombos compartilham algo em comum: todos são territórios de imaginação radical negra, transformação e regeneração da vida.

Há algum tempo venho percebendo o quanto a ciência chamada moderna ou, para melhor dizer, colonizadora, ainda precisa aprender com as ciências milenares, ancestrais. Por muitos anos li referências europeias importantes, que expandiram a minha consciência, mas que também estavam cheias de preconceitos, hierarquizações e silenciamentos sobre as potências negras, maternas e femininas.

Por muito tempo fui afastada de intelectuais africanas, afrodescendentes, quilombolas, ialorixás, benzedeiras, raizeiras e tantas mulheres negras que sempre produziram pensamento político, espiritual, filosófico e tecnológico. O racismo estrutural fez com que essas referências permanecessem invisibilizadas e economicamente desvalorizadas.

Enquanto isso, cursos, oficinas e formações continuam priorizando pessoas vindas do Norte Global ou inseridas em espaços de privilégios. No artigo anterior refleti sobre o estigma do “morrer pobre” na cultura. E seja no cuidado, seja nas artes, fica evidente que os convites gratuitos e precarizados possuem raça, classe, gênero, CEP e CPF.

E talvez seja justamente isso que as epistemologias coloniais tentaram nos fazer esquecer: que conhecimento também nasce do corpo, da memória, do afeto e da ancestralidade.

No Brasil, o genocídio da população negra também atravessa os corpos femininos. A violência obstétrica, ginecológica e emocional deixa marcas profundas. Quando observamos os números de histerectomia no país, percebemos que não estamos falando apenas de procedimentos médicos, mas também de um histórico de adoecimento de corpos historicamente violentados. Porque o útero não é apenas biologia.

O útero é portal.

E eu não falo apenas do órgão físico. Não se trata de gênero numa lógica binária ocidental. Falo de úteros simbólicos, espirituais e criativos. Portais capazes de gestar vida, ideias, movimentos, comunidades e transformações.

Foi através de pensadoras como Caroline Amanda Lopes Borges e das elaborações da Yoni das Pretas que comecei a compreender o útero enquanto espelho do cosmos. Um cosmos plural, onde a vida não se organiza pela escassez, mas pela abundância de possibilidades. Ao invés de universo, multiverso, pluriverso.

Também fui profundamente atravessada pela leitura de Sobonfu Somé, mulher africana do povo Dagara, de Burkina Faso. Quando ela escreve sobre os inúmeros provérbios africanos que relacionam crianças, prosperidade e o poder espiritual das mães, uma chave se abriu dentro de mim.

Porque percebi que o Ocidente é devoto da imagem da mãe cansada.

Transformar as maternidades em esgotamento também é uma estratégia de destruição da matripotência.

Mas quando acessamos filosofias africanas, indígenas e orientais, encontramos outra lógica. Engravidar, parir e cuidar não aparecem como fraqueza. Aparecem como reorganização da vida. Como força espiritual, política e comunitária.

Isso fez muito sentido para mim porque foi justamente durante a gestação e o puerpério que encontrei novas formas de movimentar minha economia criativa, gerar trabalhos e reorganizar a minha existência de modo visceral.

Sou matrigestora de sonhos, da criança que me traz vida e do projeto Benja em Mim, que me ensina a pesquisar em arquivos, a escrever projetos, a revitalizar dramaturgias e sonhar uma exposição sobre comicidade negra e memória.

As violências que atravessam a minha vida não vêm da maternidade.

Elas vêm do patriarcado, do racismo, da misoginia e da precarização estrutural.

Em determinado processo artístico, enquanto encontrava minha bufona, fui atravessada por um desafio emocional intenso. Eu representava uma bufona carregando o mundo nas costas, mundo criança, mundo bebê. Uma mulher de cabeça baixa que, para conquistar sua liberdade, seu prazer, precisava entregar o mundo.

Minha subjetividade começou a rejeitar aquela dramaturgia.

Na época, minha filha tinha apenas um ano de idade. Separar vida e cena tornou-se um desafio.

É isto ou aquilo.

“O mundo da maternidade é inconciliável com o mundo do prazer”…

Foi justamente entre mulheres negras, em rodas de conversa, narrando dores e reorganizando afetos, que encontrei novas possibilidades de elaborar esses incômodos.

Nossas grandes mães, Nãnã, Oxum, Iansã, Obá, Ewá e Yemanjá foram frequentemente reduzidas aos sentimentos ocidentais de ciúme, vaidade, cuidado romantizados. Mas suas histórias falam também da matripotência. De ser mãe e com essa força conciliar seus mundos!

Ler Katiúscia Ribeiro elaborando sobre irmandade, ao invés de sororidade, reorganizou muita coisa dentro de mim. Porque ainda que estejamos entre mulheres o marcador racial não pode ser sufocado. Discursos que consideram todas as mulheres iguais, ou que defendem a mãe “livre sem a criança” não vão dar conta do “quero ser livre e cuidar da minha cria também, quero meu tempo de maternar ”. Esta imbuído aí o dilema histórico da luta de mulheres brancas para acessar o mercado de trabalho e sair do lar. E de muitas mulheres negras já estarem trabalhando faz tempo e terem seu tempo de família e afeto arrancado. Nessa época a arrancada da minha filha para creche, a saga de encontrar uma creche digna (o que precisa ser direito garantido) me fez entender que eu ainda preciso de tônus.

Universidade, trabalho criativo e intelectual com o meu próprio corpo são processos que expõe minhas vulnerabilidades e a proporção do acolhimento não vem na mesma dimensão. Então, o discernimento, a maturidade profissional, o esvaziamento de expectativas e, principalmente, as mandingas contra o racismo precisam estar bem organizadas. Hoje estudo numa faculdade onde desisti da graduação de história no último período há 15 anos atrás, sou outra e isso leva tempo. Hoje “Tenho minha filha para criar” e sei o que eu quero ali, qual importância de “ter a pós graduação”. Então esquivo com mais leveza do que pode prejudicar minha permanência e integro que, em momentos delicados, é preciso ter auto preservação de qual processo entrar e como abrir ou reservar o que ainda é delicado para mim.

Daqui há alguns anos vou conseguir destrinchar mais o que apresento aqui e já é um caminho de cura escrever.

Foi nesse ponto de aprendizado que a palhaça apareceu como encruzilhada possível.

Quem reorganizou o caos artístico foi a minha palhaça.

A palhaça pegou o mundo de volta, desceu das costas para as ancas.

Hoje a saia da palhaça mar carrega continentes.

Eu danço com o mundo.

E justamente na bunda, lugar do peido, do cocô, estão os continentes que historicamente invadem, sequestram e colonizam gerando seus gases.

A palhaça me ensinou uma outra possibilidade de bufona. Não a bufona mãe aprisionada na branquitude de cabeça baixa, mas uma figura capaz de enxergar as próprias sombras, amadurecer e seguir criando mesmo atravessada pelas estruturas coloniais.

Como apresenta Luiz Rufino, a colonização também é um grande carrego.

E para despachar essa maldição encontrei outro alento nas filosofias africanas.

Quando acesso Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí, compreendo que muitas das categorias que organizam o mundo ocidental foram produzidas pelo colonialismo, inclusive o gênero, o ser mulher. Oyěwùmí nos permite entender que diversas sociedades africanas se organizavam por senioridade, comunidade e pertencimento, e não necessariamente pelo binarismo homem/mulher imposto pelo Ocidente.

Isso não significa romantizar essas sociedades, mas compreender que existiram, e existem, outras formas de confluir a vida.

Meu maior dilema enquanto autônoma, pós-graduanda (sem bolsa) e multiartista não é me livrar da maternidade como peso. É expulsar violências sistêmicas.

E é justamente através dessas encruzilhadas que o circo vem para mim como território de saúde.

Foi durante o mestrado na UFMG que a pesquisadora Giza Kamila me apresentou a tese “Teresa de Benguela e Felipa Crioula estavam grávidas”, de Lorena Telles. Essa produção, já pelo título, convoca perguntas:

Onde estão as mulheres na história?

Quem foi Aqualtune? Mãe de Ganga Zumba e avó de Zumbi dos Palmares?

Quem foi Maria Bonita para além da frase “mulher de Lampião”?

Percebi então que essas questões estão profundamente ligadas a história do circo brasileiro.

E assim chego ao circo negro.

Começo por Xamego.

Maria Eliza Alves dos Reis.

Uma mulher negra, artista e palhaça que precisou inúmeras vezes amamentar atrás do picadeiro enquanto fazia o público rir. Hoje as pesquisas de sua neta, Mariana Gabriel, compartilhadas no Picadeiro Blog são essenciais para a história da arte.

Quem já amamentou ou acompanhou processos de aleitamento sabe o que isso significa. E Xamego, assim como Iansã, foi mãe de nove, sendo que oito foram para o céu. Os bastidores desse mundo precisam ser sentidos, honrados e ditos em voz alta.

Quantas vezes você já ouviu sobre Xamego?

Você conhece quem foi a mãe de Benjamim de Oliveira?

Existe uma fotografia muito conhecida de Benjamim ao lado de Dona Leandra, sua mãe. Mas a legenda dessa foto eu só encontrei quando tive acesso aos arquivos primários no Rio de Janeiro.

A legenda diz:

“Benjamin cantando ao violão um lundu para alegrar sua velha mãe que faleceu aos 119 anos de idade. Foi a primeira vez que ela viu o filho vestido de palhaço.”

Essa mulher afrodescendente, escravizada, quitandeira, que fazia broas e doces para o filho vender na porta do circo, certamente ensinou muito ao homem que se tornaria um dos maiores artistas da história do Brasil.

Mas a história oficial raramente pergunta sobre essas mulheres.

Quem foi Victoria de Oliveira? “Esposa” de Benjamim ?

Quem foi Jacy Oliveira? “Filha” de Benjamim?

Quem foi Jaçanãn? “Neta” de Benjamim ?

Quem sustentou emocionalmente, artisticamente e materialmente essas trajetórias?

O mito do herói isolado é uma invenção colonial.

Nenhum Benjamim chegou sozinho.

Nós viemos ao mundo por meio de um portal sagrado.

Existe uma egbé.

Uma rede.

Uma comunidade matripotente sustentando a vida.

E é justamente por compreender essas ausências que hoje defendo outra leitura sobre o circo, uma interpretação que se abre pela matripotência.

Quando escuto a expressão “fugir com o circo”, entendo que o circo também pode ser pensado como aquilombamento.

Porque fugir com o circo revela algo muito profundo sobre a história brasileira.

O circo foi espaço de deslocamento.

De fuga.

De reinvenção.

De sobrevivência.

Assim como os quilombos, o circo também criou comunidades afetivas e resistentes, matripotentes…nos quilombos nossas anciãs, Dandaras, Aqualtunes…nos circos nossas Xamegos, nossas Victorias de Oliveira! Muitas delas gestantes, puérperas…

Um dos filmes mais incríveis sobre o reconhecimento da matripotência é o “Vida de Mãe” realizado por Sereno Vilarinho em homenagem à sua mãe, Antonia Vilarinho, a palhaça Fronha, mãe solo, atípica, mulher negra, nordestina, doutora e mestra nas culturas ancestrais como a capoeira e linguagens cômicas. Eu lembro que levei meses para ler seu artigo sobre bufona onde 10, 15 páginas tem universos inteiros.
Muitas mulheres produtoras, intelectuais, criativas que precisam de nome, sobrenome, história e, sobretudo, pesquisa.

É por isso que a matripotência atravessa o meu trabalho.

E essa matripotência não está limitada à maternidade biológica. Ela se expande para quem gesta projetos, sonhos, coletividades e vidas.

No meu mestrado, onde desenvolvo uma exposição sobre Benjamim de Oliveira, a lona é justamente o portal que abre as galerias.

A lona útero.

A lona multiverso.

A lona aquilombada.

Hoje sigo movimentando essa pesquisa através de encontros mensais no grupo de estudos ERÊ, nos cursos, arquivos e na campanha para transformar essa exposição em realidade.

Na construção dessa vakinha boto minha banca inspirada nas Iyás, são recompensas de massagem, agendas, formações, são estratégias abundantes, porque a terra antes de ser mãe é fértil para si mesma e consegue ser tudo isso sem largar uma coisa ou outra.

Então a lona também é céu.

E nós também somos estrelas.

Cada qual com seu brilho, propósito e direito de irradiar existência.

Talvez seja isso que Benjamim de Oliveira, Xamego, Dona Leandra e tantas outras pessoas negras do circo continuem nos ensinando através do tempo: mesmo diante do apagamento,

seguimos criando mundos, mundos possíveis, que jamais podem ser arrancados e entregues para branquitudes cirúrgicas.

Se essa pesquisa toca você, te convido a conhecer, apoiar e compartilhar o projeto da exposição Circo Teatro Negro, fruto da minha pesquisa de mestrado. Apoiar essa exposição é também ajudar a manter vivas histórias que insistiram em sobreviver ao racismo, ao silêncio e ao esquecimento.

Conheça o projeto:

https://linktr.ee/benjaemmim

https://apoia.se/exposicaocirconegro

Referências : DA SILVA TELLES, Lorena Féres. Teresa Benguela e Felipa Crioula estavam grávidas: maternidade e escravidão no Rio de Janeiro (1830-1888). Editora Unifesp, 2023.

CARDOSO, Antonia Vilarinho. BUFONA SAGRADA.. In: Anais do 3º Seminário Mulher, Mito, Riso e Cena – Teatro-Máscara-Ritual. Anais…Salvador(BA) UFBA, 2023. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/3mmrc/522854-BUFONA-SAGRADA. Acesso em: 29/05/2026

GABRIEL, Mariana. Picadeiro Blog. https://share.google/N4JHSdKZxvkwxmBV5

NJERI, Aza; RIBEIRO, Katiúscia. Mulherismo Africana: práticas na diáspora brasileira. Currículo sem fronteiras, v. 19, n. 2, p. 595-608, 2019.

OYĚWÙMÍ, Oyèrónkẹ́. A invenção das mulheres: construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero. Bazar do Tempo Produções e Empreendimentos Culturais LTDA, 2021.

PRETAS, Yoni das. Publicações de Caroline Amanda no instagram @yonidaspretas
RIBEIRO, Katiúscia. Mulheres negras e a força matricomunitária. Revista Cult, v. 27, 2020.

SOMÉ, Sobonfu. Acolhendo o Espírito: Ensinamentos ancestrais africanos na celebração dos recém–nascidos e da comunidade. Diáspora Africana: Editora Filhos da África, 2023.

VILARINHO, Sereno. Filme Vida de Mãe. https://youtu.be/ccdFR6W2QD8?si=iyPj507gW1z9FiL2

Related posts

As dificuldades que os autores de periferias encontram nas edições de seus livros – Festa de Literatura e Cultura Rio das Ostras

Silva

#7 Histórias do Rosa dos Ventos – Não tem som, não tem luz, mas tem coca cola

Silva

Pedagogia Circense – Malabares com Caixas (link)

Silva