Beijo e Xamento! Sim! Afeto negro nas raízes do circo

O presente artigo é um presente mesmo! Vem comigo, vai ser bom demais!

Me pega de jeito refletir que em pleno século 19 e 20 pessoas negras no circo deram para si nomes artísticos que dizem muito sobre afeto: Benjamim de Oliveira, era o palhaço Beijo e Maria Elisa Alves dos Reis foi “a palhaço Xamego”. No mestrado de Maicon Dias (2022) encontrei essa forma de me referir a Maria Elisa e o blog de sua neta Mariana Gabriel é uma fonte de inspiração e fôlego para mim.

Se ainda hoje o racismo adoece, violenta e mata, reverencio a sabedoria de ancestrais do riso que se batizaram como Beijo e Xamego, decretando o afeto enquanto guia… e o nome é algo muito significativo, não é mesmo? Nos terreiros de matriz africana e em várias manifestações, como a própria palhaçaria, existem rituais de reconexão que passam pela identidade, pelo reencontro com outros nomes. Me recordo aqui das oficinas de Palhaçaria de Terreiro com a mestra Antonia Vilarinho onde a autonomeação como encontro de si é um “pretexto para falar de amor”.

Será que Benjamim, recebeu o nome Beijo porque beijava muito e Xamego porque xamegava ? Beijar, xamegar, são ações que podem ser feitas para além do esfrega, esfrega, para além de relações sexuais ou conjugais.

Segundo o google, Beijo que dizer:

1.
ato ou efeito de tocar, pressionando, os lábios sobre pessoa, animal ou objeto querido ou com valor simbólico, ger. para demonstrar carinho, afeto etc. “deu um b. na filha adormecida”
2.
FIGURADO ato ou efeito de tocar de leve, de roçar, de ter um suave contato. “o b. do mar na areia”
3.
FIGURADO (da acp. 1) pessoa adorável pela beleza ou outra qualquer qualidade (simpatia, bondade etc.).
4.
BRASIL•ANGIOSPERMAS m.q. MARIA-SEM-VERGONHA ( Impatiens walleriana ).

Origem⊙ ETIM(sXIII) latim basĭum,ĭi ‘beijo (de amor ou de respeito)’

Já a palavra Xamego significa:

1.
afeição, apego. “ele tem enorme c. pela irmã”
2.
paixão intensa ou atração de ordem sexual.
3.
contato indecoroso; bolinação, sarro.
4.
namoro.
Origem
⊙ ETIM(1844) orig.contrv., talvez ligado a chama

O Beijo e o Xamego são mais do que gestos e ações. Assim como o cafuné, o dengo, o xodó, o cafofo, o balangar e tantas outras palavras de raiz negra, beijo e xamego são culturas de cuidado que podem acontecer em muitos lugares e formatos, seja no trabalho, nas comunidades, entre amizades e na família. A matriz que acolhe os nomes Beijo e Xamego, possui um berço e é diferente do sistema civilizatório do norte global – onde o toque vem com a exclusão de quem é digno de carinho e também cria alvos, censuras, punições, estupro e roubo.

O antropólogo africano, senegalês, Cheikh Anta Diop (2014) sistematizou a teoria dos berços civilizatórios, baseada no fato de que o sul global, quente, tropical, fértil e abundante possui modos de organização baseados no cooperativismo. Muitas pessoas que moram nas cidades do interior, continuam a ter o hábito ou devem se recordar da época em que as mineradoras e as empresas ainda não haviam deixado os rios e matas doentes, em coma, no CTI. Como bem aprendi com o indígena Ailton Krenak a natureza não morre, mas está agonizando no CTI.

Voltando ao raciocínio aqui, algumas décadas atrás, quando havia mais árvores frutíferas, seja no interior ou nos quintais urbanos, quando alguém tinha um pé de abacate e não iria dar conta de comer tudo, essa pessoa trocava com quem tinha goiaba…e desse troca troca, desse chupa chupa de frutas, existem várias festas. Festas da colheita, do plantio, festas da inteligência e da ciência que pariu nações indígenas e negras onde a própria natureza é orixá.

Já no berço norte, na parte do mundo que é afetada pelo clima frio, polar, houve a consolidação de uma estrutura medieval, feudal, em que a contenção, a propriedade privada, a corrida por armas virou lei. O cercamento não foi apenas dos territórios, mas dos corpos, que não podiam xamegar, nem beijar. Que deveriam ser eruditos, seguindo as etiquetas (sem ética), sobre a vida. Essa volta ao mundo realizada aqui não é uma divagação, é uma pesquisa científica e profunda que me traz metodologias para interpretar o palhaço Beijo e “a” palhaço Xamego. Quando trazemos a teoria dos berços civilizatórias para comicidade, as gagues clássicas europeias estão muito mais no sentido de competição, disputa, humilhação, de bater e apanhar, de gerar o riso que fere e é sem graça. Já as culturas do sul global, chamam para umbigada, para ginga, para a roda, os palhaços da folia são soldados que disfarçaram e fugiram da ordem do Rei Herodes para matar Jesus Cristo.

Por amor, não se trata aqui de romantizar sistemas, ou de dizer que todo norte global e toda herança branca é ruim. Mas, existem sistemas imperativos no mundo. Também não se trata de estudar quem foi Benjamim de Oliveira e quem foi Maria Elisa Alves dos Reis dentro de lentes engessadas. A idealização de pessoas e movimentos torna rasa demais suas complexidades e exige criar heróis como faz a branquitude ocidental. No picadeiro e na vida, as teorias têm outras dinâmicas diante dos fatos. Uma grande babilônia surge quando a colonização do norte global entra em cada DNA com as suas imposições de poder e política. Em histórias onde existem seres vivos, ali estão, vulnerabilidades, defeitos, luzes e sombras.

Porém, é preciso tirar do mesmo pacote de “humanidade” sistemas que se baseiam na exploração e nos desafetos, dos sistemas que se fundamentam no cuidado e na convivência real com o ser natureza. Dentro de uma sociedade colonizada pelo norte global, onde pessoas negras foram impedidas de se amar, quem anunciava a entrada de Benjamim nos Circos tinha que engolir que dele vinha o nome Beijo e quem anunciava Xamego, já pelo nome da palhaço, não podia deixar de falar em voz alta que existia ali, naquele corpo, uma fonte de carinho. Seja até 1888, antes da Falsa Abolição, seja pós 1888, fase em que a eugenia e várias atualizações do racismo foram impostas, tivemos duas presenças que contestaram um sistema colonial onde seus corpos eram objeto, animalizados, diabolizados.

bell hooks (2021), intelectual negra que assina seu nome com letras minúsculas, para que o foco esteja sobre o seu conteúdo e não sobre o ego, é mais uma referência que compartilho para refletir sobre Beijo e Xamego. Em suas teorias o amor e a comunhão, são caminhos de cura. Dentro de um recorte temporal, as análises de bell hooks evidenciam o quanto as populações negras foram impedidas de amar. Ao mesmo tempo em que muitas comunidades negras conseguiram vencer a solidão, milhões de pessoas ainda hoje pautam e enfrentam processos de abandono, preterimento, isolamento, exclusão, mutilamento e muitas violências.

Para mim, enquanto pesquisadora, um dos maiores feitos de Benjamim de Oliveira não está ligado a consolidação do gênero do Circo Teatro no país, mas por perceber que ele, enquanto ser humano, em sua subjetividade, diante de todos os B.O. que viveu, pôde construir relações, inclusive, uma família preta, em um período onde o sequestro e a interrupção de laços era uma política assumida de estado, seja em meio a contextos de eugenia ou de falsa abolição. Numa camada ainda mais profunda, sinto a força e a leveza de Xamego, que como uma búfala e borboleta, encontrou mandingas para que seu corpo de mulher negra ocupasse, dentro de estratégias possíveis para época, o centro do picadeiro. Seu pai, João Alves, assim como Benjamim, nascido nas terras bantu, indígenas, africanas de Minas Gerais, se tornou dono do Circo Guarany e esse será tema de outro artigo.

Que revolução é trazer para cena nomes e dramaturgias onde amor, o casamento, a liberdade de escolha afetiva são pauta. Pois é, existem artistas pretas e pretos que registraram no papel, na máquina de datilografar e na vida, mensagens que precisam ser estudadas nos bancos da universidade, nos cursos de teatro, circo e palhaçaria. Em 2023 transcrevemos e realizamos círculos de pesquisa sobre as obras de Benjamim de Oliveira e várias peças, de modo malandro (no melhor sentido da palavra malandro), chocam hierarquias de classe, gênero e raça, num momento onde tudo era forçado, inclusive o matrimônio. Cada vez que eu escrevo me vem a necessidade de registrar o desejo de que as peças de Benjamim possam ser reunidas, encontradas e que a memória do circo negro seja cada vez mais acessível como um movimento de reparação e retomada do afeto. Agradeço pela escuta e te convido a participar da pesquisa Mapeamento Riso Negro, que é parte do mestrado em curso na UFMG: https://forms.gle/hdLjK6ttjfSHuj576.

REFERÊNCIAS:

 

● LIVROS E ARTIGOS:

 

DIOP, Cheikh Anta. A unidade cultural da África Negra. Esferas do patriarcado e do matriarcado na Antiguidade Clássica. Luanda: Edições Mulemba, 2014.

DIAS, Maicon Vinícius Pereira. Palhaços músicos: a música negra no picadeiro do Brasil. 2022. 150 f. Dissertação (Mestrado em Teatro) – Escola de Teatro, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2022.

hooks, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. São Paulo: Elefante, 2021.

hooks, bell. Comunhão: a busca das mulheres pelo amor. São Paulo: Elefante, 2024. 285 p.

CARDOSO, Antonia Vilarinho. Palhaçaria de terreiro: Um caminho de corporeidades afrocentradas para processos criativos des palhaçes. 2024. Tese de Doutorado. Universidade do Estado de Santa Catarina.

● VÍDEOS:

 

BERÇOS CIVILIZATÓRIOS – CHEIKH ANTA DIOP – Renato Nogueira

Link de acesso: https://youtu.be/ubdCidK_JAs?si=xKwJC887xX4RzauM

Ailton Krenak II: “O Watu, o nosso avô, está em coma” Link de acesso: https://www.projetopreserva.com.br/post/ailton-krenak-ii-o-watu-o-nosso-avo-esta-em-coma/#:~:text=Em%205%20de%20novembro%20de%202015%2C%20uma,por%20675%20km%2C%20at%C3%A9%20chegarem%20ao%20mar.

● BLOG & SITES:

 

PALHAÇO XAMEGO MARIANA GABRIEL – PALHAÇA BIROTA – NETA DA PALHAÇO XAMEGO

https://palhacoxamego.blogspot.com/2015/03/primeira-parte_21.html

PROJETO BENJA EM MIM:

https://linktr.ee/benjaemmim

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